Por Pedro Costa De Biasi* - Especial para o Portal Japão.
Verão Negro - Falsa Acusação (Nippon no kuroi natsu-Enzai)
Em “Verão Negro – Falsa Acusação”, o diretor Kei Kumai estuda órgãos que operam em função da verdade. O enredo se baseia num trágico incidente, em que um ataque com gás sarin matou 7 pessoas e feriu quase 600 num conjunto habitacional de Matsumoto. Dois jovens estão fazendo um documentário sobre Toshio Kanbe (Akira Terao), que foi injustamente tido como culpado e se encontram com a redação de um telejornal local para descobrir o que ocorreu e não foi divulgado.
Os temas que se originam dessa premissa crescem em quantidade e complexidade ao longo da história e não simplificam as questões éticas, tampouco. O jornalismo é comparado com a Polícia pela necessidade de apuração, compromisso com os fatos e, principalmente, pelos danos que as decisões de ambos podem causar. Nenhum dos dois órgãos, no entanto, é demonizado: personagens como o detetive Yoshida (Renji Ishibashi) e Koji (Yukiya Kitamura) confirmam essa honesta escolha do roteirista – o primeiro tem um papel mais importante por ser o único de sua função que demonstra humanidade. Além disso, o mundo profissional – mais notadamente, o ambiente jornalístico – é reproduzido com destreza, seja pelo competente elenco (especialmente Terao, Ishibashi e Kiichi Nakai, como o editor-chefe Sasano), pelas câmeras, pelos diálogos ou pelo departamento de som.
A dinâmica estrutura narrativa, que retoma elementos que levam a outros, se mantém coesa e clara, além de realizar uma busca metalingüística pelos fatos através do documentário dos jovens. O crivo da polícia e da mídia ainda deixa certas verdades para trás, e nessa constatação ambos os filmes se justificam. As falhas não estão ausentes, pois Kumai às vezes abusa do didatismo (na trilha sonora; no uso do clima como adereço dramatúrgico; na boa porém supérflua encenação do ataque), mas a intenção e os resultados, afinal, são excelentes.
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imdb] [Título internacional: Darkness in the Light]
Água
É através de temas atemporais que “Água” tece um comentário muito atual sobre o planeta, embora, em 1995, o tema ainda não tivesse tanta urgência. A história foca a cidade de Genkai, onde dois meteoritos caem e disseminam a Doença da Pedra, que enrijece as vítimas, além de causar uma grande seca. Hazuki Izumi (Komine Rena), num campeonato de salto ornamental, sofre um acidente. Ela se recupera, mas faz e fala coisas estranhas.
Há um embate sutil ocorrendo entre a humanidade e o Universo – ou a Natureza. A questão é o desequilíbrio causado pela presença predatória do Homem na Terra, que evoca a reação violenta que arruína as reservas de água. A relevância de Izumi é estar no meio da batalha, como uma cena bem mostra: ela se corta numa pedra, e a torneira magicamente funciona para lavar seu sangue. Nesse momento, entretanto, o papel dos Elementos e das empolgadas explicações científicas perde clareza.
O roteiro é complexo, farto em detalhes e parco em explicações. Seguir a linha metafísica requer atenção mesmo em filmes mais bem construídos, e nesse, muitas respostas se perdem – algumas são até abandonadas para agilizar a trama – e outras abusam da permissividade da fantasia. Isso fere a narrativa, mostrando que Ishii se sai bem melhor no comando das câmeras e ambientes. Ao menos, o resultado é um conjunto de cenas que conseguem aliar poesia e tensão (os saltos ornamentais) e a presença de um clima adequado, ajudado pela eclética trilha sonora, que dá quase toda a emoção que a obra tem.
“Água” promete muito com seu primeiro plano, que, através de uma imagem mística, mas corriqueira (reflexos de arco-íris no chão de uma piscina), consegue estabelecer a imposição de elementos sobrenaturais na simplicidade de um elemento da Natureza. Só que, além do ponto de partida, as efusivas ideias se tornam mais importantes que escrever um bom roteiro. O filme é eficiente só se visto em seu centro temático básico.
A floresta é minha escola (Mori no gakko)
É dispensável tentar especificar, logo de cara, “a que veio” a adaptação das memórias de Masao Kawai. Não se pode especificar uma linha narrativa ou um tema em “A floresta é minha escola” sem trair a completa irresponsabilidade que permeia a vida dos garotos do filme. Entre inúmeras e inventivas brincadeiras, mergulha-se no mundo infantil com uma curiosa acessibilidade, com ajuda, inclusive, da simpática trilha sonora.
A má saúde do pequeno Masao (Haruma Miura), no entanto, o impede de ter qualquer constância na escola, o que tira grande parte do rigor de sua rotina e limita um pouco a relação com os colegas – é uma pena que o roteiro erre a mão e torne Miyoko mais ausente que o necessário. Na floresta, onde o jovem protagonista procura insetos, animais e plantas para reunir em seu “zoológico”, tudo é mais vívido e relevante, mas a esse contato também falta uma noção temporal, consistindo de fragmentos soltos.
Se se pode falar de uma estrutura temática, ela está na figura da avó. Sua rara presença na vida do menino contrasta com o comportamento estranho dele. A distância das aulas e a educação defasada levam-no para perto da Natureza, o que o torna mais arisco entre pessoas, e a avó, além de sentir na pele, compreende essa atitude. Sua insistência em querer o bem físico do neto tem em vista a melhoria de seus elos sociais, pois na escola ele pode se relacionar mais com os amigos e continuar visitando a floresta. E muito mais que sentimentalismo barato, o final do filme tem muita ressonância no plano simbólico.
Saber que Masao cresceu para se tornar estudioso de primatas permite uma interessante – e confiável – ponderação sobre dons, experiências de vida e marcas da infância. A sensibilidade do protagonista – encarnada com naturalidade e nuances surpreendentes por Miura – pode ter fragilizado suas relações interpessoais, mas iluminou o caminho a seguir na vida adulta. E mesmo que a beleza plástica esteja aquém da proposta saudosista, o belo encontra vários outros meios de emanar da obra.
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imdb] [Título internacional: The School in the Woods]
Swing Girls (Swing Girls)
O que chama atenção em “Swing Girls” é a honestidade. O humor pastelão, os estereótipos e a completa falta de justificativa para muitas cenas cômicas fazem parte de uma escolha totalmente consciente do diretor Shinobu Yaguchi. Em determinado momento, sem razão alguma, todos os personagens começam uma guerra de bolas de neve. No filme, as coisas não funcionam com “permissão” da causalidade, e fica a sensação de irreverência que muitas comédias falham em passar. Na mesma cena, uma possibilidade dramática ou romântica parece se insinuar, mas logo cai na comédia escancarada mais uma vez.
Esse descompromisso com a seriedade acaba dando um relativo frescor ao cansado sub-gênero de “filmes-de-time-desajustado”. Por exemplo, a típica deslocada talentosa já mostra sua capacidade uns 10 minutos após o começo; o mistério da identidade do velho sábio é reduzido a um encontro míope; e o rato, piada pronta para mocinhas, ganha uma qualidade inusitada. É na distância da realidade que o roteiro encontra essas pequenas fugas do lugar-comum, e aí também se encontram numerosos clichês. Pode-se argumentar que a previsibilidade é honesta, mas saber o que vai ocorrer antes da hora (como é o caso em vários momentos) diminui a experiência de um jeito ou de outro.
Mesmo assim, o filme se revela um excelente exemplo de feel-good movie. A combinação de humor de alta qualidade (cortesia do ótimo timing conjunto do roteiro, da direção e da montagem) com um elenco liberal quanto a caras e bocas garante a diversão. Ao mesmo tempo, a alegre leveza do jazz, ressaltada por um trabalho esmerado do departamento de som, torna a comédia ainda mais saborosa. E, apesar de “Swing Girls” se render a mesmices narrativas, o final surge como uma grata surpresa, deixando uma marca positiva ao fim da projeção.
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imdb] [Título internacional: Swing Girls]
Um menino no verão de 1945 (A Boy’s Summer in 1945)
Da poesia ao conceito de honra, a intenção de “Um menino no verão de 1945” é quebrar ideais de cunho redentor. Nos campos temático, humano e cinematográfico, o diretor Kazuo Kuroki procura destituir de beleza e dignidade muitas das ações dos personagens, ressaltando a crua rejeição aos valores da sociedade japonesa.
A história, baseada na vida de Kuroki, é focada em Yasuo, um garoto que trabalhava numa fábrica até um bombardeio a destruir, e ele é suspenso do serviço substituto por causa de uma doença. Na casa do avô Shigenori (Yoshio Harada, brilhante), que o acolhe enquanto seus pais estão na guerra, ele se torna testemunha de um turbilhão de acontecimentos envolvendo a empregada Haru, a irmã de um colega morto no ataque à fábrica, Nami, e até alguns militares que se preparam para ataques dos Aliados.
No quesito estético, nota-se uma desconstrução das imagens poéticas e harmônicas, como fica claro na primeira aparição de Nami: primeiro ela é mostrada num plano comum e seco, e só depois é colocada de costas para a câmera, numa composição visual mais suave. No entanto, ver a beleza depois de ser negada causa uma sensação de estranhamento.
Menos pungente é o modo como o roteiro tenta uma abordagem semelhante. A relação de Haru e Hibe (ele, um soldado aleijado na guerra) apresenta a honestidade da cena citada acima, mas é uma honestidade mais “fácil”, com diálogos frágeis que não fazem jus aos ideais que o próprio Kuroki conscientemente quebra – o que pode ser dito de todas as relações amorosas. Essas subtramas também diluem o que é a espinha dorsal do filme: a história de Yasuo e o que ele representa para os ideais de Shigenori. Este o vê como uma decepção perante os valores da Pátria, o que só torna o clímax dos eventos mais potente como demolição de tradições. Sob esse viés, as juras de honra feitas durante a embriaguez de dois personagens criam uma das melhores cenas da obra.
Essa visão violenta e negativa surge graças a uma guerra que, como o diretor habilmente mostra, está distante, como os aviões que zunem sem apresentar ameaça definida. Mas os danos já foram causados: o patriarca pode lamentar e se enfurecer, mas mesmo na pureza da revolta de Yasuo, os valores em que ele acredita não têm mais voz.
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imbd] [Título internacional: A Boy’s Summer in 1945]
Muita adrenalina (Adorenarin doraibu)
Se um filme dá a impressão de se estar assistindo a uma obra de Joel e Ethan Coen (“Queime depois de ler” e “Fargo”), a última coisa a se esperar é seriedade. Entretanto, é com essa expectativa que “Muita adrenalina” causa uma ruptura. Ao fugirem com dinheiro do mafioso Kuroiwa (Yukata Matsushige), Satoru (Masanobu Ando) e Shizuko (Hikari Ishida) se enveredam na clássica comédia de erros. O diretor Shinobu Yaguchi, mesmo assim, pesa a mão na estética e na composição das imagens, dando placidez a uma história no mínimo estapafúrdia.
Bem, até aí há grande semelhança para com “Fargo”, e o uso de uma cuidadosa encenação realista não consta a diferença, tampouco. A distinção vem do foco. Enquanto os irmãos Coen miram para a desorientação, para eventos ilógicos que denunciam o caos da sociedade moderna, Yaguchi retrata a demente perseguição de forma clara, direta e decidida. “Sim, meus personagens estão fazendo essas sandices por dinheiro, e, sim, isso é perfeitamente natural“, diz o cineasta, sem rodeios.
Sem tomar partido, ele aceita essa normalidade, ressaltando-a através de planos longos e bem construídos e um apuro visual pouco comum em comédias – nem mesmo em “Swing Girls”, três anos depois, sua atenção com os enquadramentos chega a níveis tão rebuscados. A direção de atores também pode ser comparada, já que a caricatura é abraçada sem ressalvas na obra posterior, e nessa, Matsushige, Ando e Ishida representam suas personalidades distintas quase que sem afetação, para dar reforçar as ideias do diretor.
“Muita adrenalina”, no fim, soa quase irônico, pois não há muita ação na trama, e quando há, é encenada sem a intensidade para justificar esse título. Mas também faz sentido, dentro da proposta, que qualquer adrenalina se torne diluída em um realismo pouco cinematográfico – o que não se pode dizer de uma tediosa faixa de roteiro dedicada ao relacionamento de Satoru e Shizuko. Mas isso é mais um detalhe incômodo que um tropeço no conceito do filme, que é um delicioso refresco cômico.
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imbd] [Título internacional: Adrenaline drive]
A garota que saltou no tempo (Tokio o kakeru shôjo) 
Em “De volta para o futuro”, viajar no tempo era uma aventura emocionante e confusa. Em “Efeito borboleta”, era algo que só causava tragédias. E em “A garota que saltou no tempo”, é uma grande festa. Não existe, na história de Makoto, a empolgação da descoberta, mas o clima é bem próximo da trilogia de Robert Zemeckis, guardadas as proporções. A jovem utiliza a recém-descoberta habilidade para passar horas no karaokê com os amigos, para comer a janta que prefere e para se dar bem nos jogos de baseball com os amigos Kosuke e Chiaki. A sensação é de estar num parque de diversões temporal.
O mais interessante no filme é o uso do espaço e do tempo. O diretor Mamoru Hosoda utiliza muito bem o enquadramento como instrumento de limitação: embora fique claro que, durante os “saltos” no tempo, Makoto desaparece de um lugar e se materializa em outro, isso nunca é mostrado. Apenas suas partidas e chegadas, aos trambolhões, fazem parte da imagem, isso porque a imagem é selecionada para causar uma confusão espacial. Paralelamente, o modo como a animação é editada também diz muito, pois ela praticamente não inclui cenas do que “ficou para trás”. Quando a protagonista viaja no tempo, é como se a realidade onde ela estava fosse descartada e trocada pela atual, sem nenhum tipo de dano que vá complicar todo o futuro.
Essas características da habilidosa direção, no entanto, não escondem que o roteiro decai muito ao longo da projeção. A leveza dos acontecimentos vai dando lugar a dramas mais sérios, e, em dado momento, caem em um imbróglio romântico que tenta desesperadamente encontrar sua própria relevância, mas só dá uma guinada para uma conclusão forçada. Igualmente, a narração de Makoto (um trabalho excelente da dubladora Riisa Naka, por sinal), que no início tem um valor cômico interessante, é abandonada e faz falta mais tarde, quando o roteiro já não empolga mais. Assim, é no começo, alegre e dinâmico, que existe um bom filme. O que vem mais tarde poderia simplesmente voltar no tempo.
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imbd] [Título internacional: The girl who leaped through time]
O sol sempre se põe na terceira rua (Always san-chôme no yûhi)
“O sol sempre se põe na terceira rua” é um fascinante estudo de relações humanas, desde as diretas até as que passam de geração em geração. A história, passada na Tóquio de 1958, é focada em vários personagens: Chagawa (Hidetaka Yoshioka) tem um pequeno comércio, mas sonha em ser escritor; a jovem Hoshino (Maki Horikita) aceita um emprego na oficina de Norifume “Auto” Suzuki (Shin’ichi Tsutsumi), onde é acolhida pela família; Ishizaki (Koyuki) é a dona de um pequeno bar que tem de cuidar do abandonado Junnosuke (Kenta Suga); e Ippei (Kazuki Koshimizu), filho dos Suzuki, começa uma amizade com Junnosuke.
Para já livrar o peso: o grande problema da obra é, sem dúvida, seu início. O humor hesita muito em se assumir como caricato, o que se comprova em uma porção de cenas de timing ruim. Pior ainda: essa opção cômica é um desperdício brutal de atores fascinantes, como Horikita e Yosuioka, que só se encontram quando os dramas surgem. Por outro lado, o personagem do Dr. Takuma já mostra o cuidado dos roteiristas: ele é a única peça dramática que surge cedo, para anunciar a transição da irreverência para a seriedade.
Além disso, as várias linhas narrativas têm ritmo, e se cruzam numa coerente lógica de bairro pequeno. Dentro delas, interessantes assuntos são abordados, como a passagem da tradição à modernidade (a presença do Natal é terna e inteligente), construída dentro de uma Tóquio que passa por esse exato processo. Em cada trama, ainda habitam temas tocantes, como a natureza da família (Hoshino e Junnosuke), a chance de recomeçar (Ishizaki) e o poder das relações humanas (Cagawa) – embora esse último esteja presente do começo ao fim.
Também é digna de nota a reprodução da época, ajudada por uma direção de arte dedicada e efeitos visuais de altíssima qualidade. Mesmo assim, o visual é apenas um detalhe de ambientação, uma vez que a afável presença do pequeno Koshimizu já faz todo o trabalho de cativar e atrair para dentro do filme.
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imbd] [Título internacional: Always - Sunset on Third Street]
Honra de samurai (Bushi no ichibun)
Depois se ver “Honra de samurai”, o uso do termo “sutil” tem de ser revisado, de tão repleta de sutilezas que a obra de Yoji Yamada é. A começar, a história de Shinnojo (Takuya Kimura) e Kayo Mimura (Rei Dan) tem uma linha secundária acompanhando a trama: as mazelas da tradição. Tema comum no cinema japonês, aqui ele é tratado com atenção aos mínimos detalhes, causando efeitos devastadores. Se o encontro com o Imperador mostra isso claramente, o que dizer do insignificante Higuchi, cujo cargo é dado a outro e cujo paradeiro é ignorado por completo? E mais: o que é dito a Kayo quando seu marido é envenenado (“Prepare-se para se retirar a qualquer momento”) deixa claro o nível de obediência esperado dos súditos.
No caso da instituição familiar, onde se prevê quase o mesmo nível de respeito, é através de comentários soltos como “viemos aqui, nesse calor” que o roteiro explicita a falha gritante daquele modo de vida. A crescente rejeição aos entes familiares é ousada, e escala até o desconcertante diálogo entre Shinnojo e sua tia. Aí, não pela primeira vez, se nota a habilidade de Yamada como diretor: o clássico campo/contracampo só entra quando a discussão ganha outra voltagem. O apuro do cineasta para a imagem e a fotografia chega a ser tocante: ele nunca mostra o castelo do Imperador, senão por reflexos trêmulos na água, e mantém Takuhei (Takashi Sasano) enquadrado em momentos intensos, para ressaltar sua servidão profissional e sentimental.
Assim, o elenco se torna o assunto. Apesar de Yamada merecer muitos elogios pela mise-em-scène e pela direção de atores, é inegável que cada intérprete faz seu trabalho impecavelmente. A subserviência de Sasano é transmitida através do rosto cansado, mas disposto, e seus olhos carregam apenas o sentimento que sua condição lhe permite. Kimura, adotando uma voz calma, sustenta o arco dramático do protagonista, mostrando a reprovação e a tristeza de seu personagem de modo contido e nuançado. Por fim, Dan balança fragilmente entre a dedicação conjugal e a ousadia emotiva, saindo do equilíbrio quando necessário e dando novo significado a atos que um filme comum teria desdenhado.
Há ainda muito a ser ressaltado, mas dois detalhes merecem concluir o texto: a trilha sonora, artesanal e climática, e o momento em que a chuva cai fora da casa de Shinnojo e ele, dentro, chora. Suas lágrimas e a tempestade se convertem não em recursos dramatúrgicos, mas sim num único acontecimento biológico, tão irrefreável e sublime quanto a Natureza. É disso que o Cinema é feito.
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imbd] [Título internacional: Love and honor]
Hinokio
O termo “hikikomori” define pessoas que vivem domesticamente reclusas, às vezes até mesmo num único cômodo da casa, e que comumente usam a internet para se conectar com seres humanos – na maioria dos casos, outros hikikomori. É esse assunto delicado, que atinge uma porcentagem assustadora da população japonesa, que “Hinokio” aborda. Na história de Satoru Iwamoto (Kanata Hongô), um garoto paraplégico que usa um robô para ir até a escola em seu lugar, esse é o tema mais bem defendido. O roteiro cria uma discussão com pontos de vista diferentes e variáveis complexas. A reclusão do protagonista é até certo ponto justificável, e a presença de uma entidade humanóide, capaz de perpetrar comunicação e atos do próprio dono é muito mais social que a mera internet. Ao mesmo tempo, fica claro que não é a cadeira de rodas que impede o garoto de sair para o mundo.
E aí, bem, as coisas desandam. A troca do mundo real pelo virtual, o perigo que a tecnologia apresenta, a impossibilidade de escapar do bullying na escola e de ser uma pessoa “normal”: todas essas ideias fariam parte de um filme muito interessante, se fizessem parte da narrativa principal. Em vez disso, o roteiro prefere criar uma trama em que um videogame tem conexões com a vida (ou melhor, com a morte) real. Aí ainda existe conexão com a ameaça tecnológica, mas esse tema não é respeitado, porque os realizadores escolhem um tom esperançoso que enterra quase tudo que era intrigante.
Daí resultam cenas embaraçosas, historietas cansadas e uma direção extremamente repetitiva, que quer explicar o que já estava muito bem exposto – como o tato de Satoru, por exemplo. Por outro lado, não se pode negar que Jun e Sumire são bons personagens (dão uma impressão no começo e assumidamente mudam de conduta mais tarde) e que Hongô, mesmo sendo o único, entrega uma atuação bastante digna. Ademais, os efeitos visuais sustentam o conceito através do simpático robô, mas em pouco ajudam a frágil narrativa.
Mura no shashinshuu
“O Álbum da Vida” é um filme óbvio. Dos temas ao tom saudosista, dos dramas à fotografia bucólica, não há nenhuma tentativa de criar algo novo. E é aí que a surpresa se sustenta: em vez de criar, Mitsuhiro Mihara opta por evocar, por emular as sensações de uma vila prestes a ser esvaziada para dar lugar a uma represa. Dando menos atenção ao ideal da tradição em si, e visando a pura alma daquela pequena comunidade, o diretor/roteirista consegue confeccionar uma obra de abrangente alcance dramático.
O impacto do reencontro entre Ken e seu filho Takashi primeiro se instala através de contracampos violentos e ríspidos, ou de simples agressões, como na bela cena em que o celular toca durante a canção de uma anciã. No entanto, mesmo nesses choques há insinuações de coisas não ditas, apenas deixadas implícitas. Os atos e diálogos são internalizados, e tudo que é externo (sejam os sentimentos dos personagens ou as técnicas cinematográficas) vem, primeiramente, de um fundo velado.
Assim, as grandes atuações desfilam diante da câmera, e ambos, atores e câmera, dão atenção ao que não está fisicamente lá. A presença de outras coisas (chamar de nostalgia, ou passado, ou mesmo aura, é nomear algo tão profundo que rejeita nomes) em cena é algo que Mihara e os intérpretes entendem muito bem. Salvo algumas cenas bem expositivas (a briga com os executivos, as revelações à beira do rio), são os hiatos que guiam a trama. Na narrativa, eles são bem representados por relações que evitam o escrutínio, como se o passado e os sentimentos fossem negados ao espectador. A direção dá unidade a tudo, tanto que detalhes como o chapéu de Ken e a foto que Takashi tira não se destacam de vários outros, mas são ressonantes. O significado está presente, mas não ressaltado.
Pode-se dizer que os eventos são assim, homogeneizados, para que o efeito não seja imediato e pungente demais. As emoções se insinuam furtivamente, e se acumulam de um modo que estende a experiência para além da projeção. Esse pequeno filme é grande em quem o vê.
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imbd] [Título internacional: ]
Pedro Costa de Biasi é estudante de jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero.